A PRIMEIRA FACULDADE DE MATEMÁTICA
Circe Mary Silva da Silva

Foi apenas na metade do século XIX, e em alguns países somente no início do século XX, que a Matemática e as ciências naturais alcançaram uma certa independência, surgindo, como conseqüência disso, faculdades independentes para essas áreas do conhecimento. A fundação de uma Faculdade de Matemática em Portugal, no século XVIII, representa, portanto, um fenômeno inusitado que merece uma análise aprofundada. Principalmente, se levarmos em conta que a primeira Faculdade de Matemática na Alemanha só surgiu, em Tübingen, em 1863.
Antes de iniciar o detalhamento desse processo, gostaria de historiar a situação político-cultural de Portugal ria época da Reforma de Pombal. O ponto decisivo parece estar no papel desempenhado pelos jesuítas, os quais entraram em conflito direto com Pombal em 1755, por causa da fundação da Companhia Grão-Pará. Em função dos conflitos entre Pombal e os jesuítas, perderam os tais religiosos o seu poder - em 1757, Pombal dissolveu as Missões no Brasil, e, em 1759, os jesuítas foram expulsos de Portugal e das Colônias, perdendo, ao mesmo tempo, o direito aos seus bens. Este fato trouxe conseqüências drásticas para o ensino, uma vez que uma grande lacuna se abriu no ensino secundário, devido ao fato de que grande Parte deste estava ao encargo dos mestres jesuítas.
Pombal tinha como objetivo transformar um país, até então constituído essencialmente pela nobreza e por unia classe de agricultores, num Estado onde o capital de comércio seria fortalecido e uma nova classe de funcionários públicos seria criada. Tratava-se, além de uma luta contra o analfabetismo, também do fomento para o desenvolvimento de uma indústria, que tornasse o país independente do jugo estrangeiro, principalmente da Inglaterra. Durante o governo de Pombal, Portugal defrontava-se com duas potências, França e Espanha, as quais ameaçavam a segurança do país. O ministro de Dom José procurava uma saída não por meios militares, mas tentava, antes de tudo, fortalecer Portugal econômica e culturalmente, julgando, para isso, importantes as relações com a Inglaterra. Ao mesmo tempo em que procurava evitar a dependência econômica de Portugal em relação à Inglaterra, ele precisava dela para a segurança de seu país.
A reforma de Pombal, no ensino, foi ampla, mas onde ela alcançou realmente resultados profundos foi na reestruturação da Universidade de Coimbra. O desejo de Pombal era elevar o nível dessa universidade aos mesmos padrões de outras universidades de renome da Europa. Para tanto, era preciso inovar.
Já bastante discutida pelos historiadores foi a importante influência de Verney, Jacob de Sarmento e Ribeiro Sanclies na ideologia dos Estatutos de 1772, da Universidade de Coimbra. Apesar disso, gostaria de salientar, aqui, alguns aspectos que julgo relevantes para a análise dessa reforma, os quais estão enraizados na obra de Verney.
Luís Antônio Verney (1713-1792) nasceu em Lisboa e fez seus primeiros estudos no Colégio dos jesuítas de Santo Antão, depois no Colégio dos Oratorianos e, por último, na Universidade de Evora, onde se graduou em Teologia. Em 1736, viajou para Roma, onde cursou Teologia e Direito. A mais conhecida obra de Verney é o “Verdadeiro Método de Estudar”, publicado, anonimamente, em 1746, embora ele tenha escrito muitas outras obras, algumas delas ainda inéditas (Grande Enciclopédia Brasileira, vol.34). O que nos interessa, principalmente, é a análise da obra “O Verdadeiro Método de Estudar”, a qual foi escrita com a intenção muito clara de servir como orientação para uma reforma geral dos estudos em Portugal.
Para Verney, a Filosofia Moderna desenvolveu-se a partir de Copérnico, Bacon, Galileu, Descartes e Gassendi. Até o início do século XVIII, dominava em Portugal a Filosofia Aristotélica, tanto nos colégios quanto nas universidades. Em outros países europeus, as idéias modernas já estavam mais divulgadas. A Filosofia, para Verney, é o conhecimento das coisas que há no mundo, das nossas ações e do modo de as regular para conseguir o seu fim (Verney, vol.3, 1950, 21). Verney atribui pouco crédito às conjecturas. Ele conclui, após ter apresentado uma exposição sobre os estudos filosóficos, que: “o verdadeiro filosófo deve persuadir-se que nós, neste mundo, sabemos pouquíssimas coisas com certeza, e das causas e dos efeitos naturais sabemos ainda menos; e que é melhor saber pouco com certeza que acumular conjecturas e não concluir nada” (Verney, vol.3, 1950, 252).
Com relação à Metafísica propriamente dita, ele não lhe atribui o caráter de uma disciplina independente; a Ontologia estaria dissolvida na Lógica, e a Pneumatologia se reduziria à Física. Tudo mais seriam puerilidades. A parte central da Filosofia, para Verney, não está na Lógica e sim na Física. A Lógica que ele segue é a de Locke. O plano de uma Lógica Moderna que Verney apresenta é um resumo das idéias contidas no “Ensaio sobre o entendimento humano”, de Locke. A origem das idéias não é, conforme Descartes apregoa, inata: “Nós não trazemos da barriga da mãe conhecimento algum: todos os conhecimentos adquirimos depois de nascidos [...] São pois os sentidos as principais oi pelas quais entram as idéias na alma [...]”
O fato de Verney inclinar-se mais pai-a o empirismo levou-o mais próximo às idéias de Newton do que às de Descartes. Esta mesma tendência será observada nos Estatutos de 1772, com relação à orientação dos conteúdos matemáticos. Segundo Salgado Júnior, as idéias de Newton iniciaram a se propagar em Portugal, em torno de 1737, com o livro de Jacob de Castro Sarmento, “Theorica verdadeira das Marés, conforme Isaac Newton etc”. Para Verney, a Física é a ciência que examina a natureza do corpo e do espírito mediante efeitos conhecidos. Para o conhecimento dos fenômenos físicos, Verney pressupõe os conhecimentos da Matemática. Nesse sentido, o autor não vê a Matemática como independente da Física; ela é uma parte da Física, estritamente falando.
Verney considera que os conhecimentos matemáticos têm um caráter exemplar: é através da Matemática que se aprende a expor bem em todas as matérias; sem ela não se pode entender os filósofos modernos, e é através dela que se alcança um entendimento pleno de todos os conhecimentos. O mesmo caráter de ciência “exemplar” está claramente exposto nos Estatutos, como justificativa para a criação de uma Faculdade de Matemática. Ainda no mesmo texto de Verney, localizo aquilo que considero como o germe para a idéia da criação de um curso completo e independente para o estudo da Matemática. “Além destas escolas, deve haver uma escola de Matemática, na qual não só se explique a Geometria, mas todas as partes da Matemática, para que aqueles que não são filósofos, e que querem saber alguma coisa dela, o possam conseguir. Este mestre (leve cada ano explicar sua matéria: por exemplo: Trigonometria, Astronomia, Náutica, Gnomonica, Arquitetura Militar, Mecânica, de sorte que em certo número de anos complete o curso de Matemática” (Verney, vol 5, 1950, 84).
A curta análise da obra de Verney, ora esboçada, tem como objetivo auxiliar na interpretação dos Estatutos de 1772. Pelos pontos aqui salientados dessa obra, pode-se dizer, de forma ampla, que as idéias de Verney foram precursoras, em Portugal, do movimento positivista surgido na França.
Até o momento da implementação da Reforma de 1772, a Matemática ocupava, dentro do sistema geral de ensino, um lugar obscuro e destituído de importância. Com essa Reforma, ela sai da obscuridade e assume, dentro da estrutura universitária, um lugar privilegiado. Antes de explicar em que consiste este lugar privilegiado, vou fazer um curto retrospecto da situação da matemática anterior à Reforma de Pombal.
Segundo Luiz de Albuquerque é muito improvável que, até o século XV, houvesse, na Universidade portuguesa, algum estudo sistemático da Matemática. Quando Dom Manuel criou, na Universidade de Coimbra, uma cadeira de Astronomia, ela foi ministrada inicialmente, e sucessivamente, p dois médicos:
Felipe em 15 13, e Torres em 1 522 Esta situação sei-ia alterada com a nomeação do matemático Pedro Nunes como lente de Matemática, em 1544. Ele ensinou nesta Universidade até 1562. Embora algumas fontes afirmem que a Matemática teria sido uma disciplina independente dentro da Universidade, ou seja, que não estaria ligada a nenhuma Faculdade, os Estatutos de 1559, da Universidade de Coimbra, situam a disciplina de Matemática dentro do Colégio das Artes. O abandono em que se encontravam os estudos matemáticos no século XVII pode ser avaliado através dos seguintes fatos: durante 41 anos (entre 1612 e 1653), esteve vaga a cadeira de Matemática, ou seja, sem professor; entre 1653 e 1770, ela só foi regida por três professores: Gaspar de Mere, Padre João König (jesuíta) e frei Ignácio de Atayde (beneditino), havendo longos períodos em que a cadeira novamente esteve vaga - o último destes períodos durou mais de 60 anos.
Em 1770, o rei de Portugal nomeou uma comissão para proceder à análise da situação do ensino na Universidade de Coimbra e elaborar novos estatutos para a mesma. Com isso, foram feitos os estatutos da Universidade de Coimbra.
A novidade nesses estatutos foi à proposição de duas novas faculdades: Matemática e Filosofia. Não apenas é criada uma Faculdade de Matemática, como também recebe a designação de Faculdade Maior, tendo a mesma graduação, predicamento, honra e privilégios que as demais faculdades (Teologia, Canones, Leis e Medicina).
Uma significativa alteração na antiga estrutura universitária é o Cato de que a matemática passou a ser uma disciplina obrigatória para os demais cursos da Universidade.
Faculdades
Disciplinas
Duração
Local
Teologia
Direito Eclesiástico
Direito
Filosofia Racional e moral
História natural e geometria
2 anos
Faculdade de Filosofia
Faculdade de matemática
Matemática
Filosofia Moral e racional
1 ano
Faculdade de filosofia
Medicina
História Natural
Física Experimental
Química
Geometria
Análise
Foronomia
3 anos
Faculdade de Filosofia
Faculdade de matemática
O quadro a seguir evidencia o grau de exigências dos conhecimentos matemáticos e filosóficos necessários para o ingresso nos respectivos cursos.
De uma forma genérica, pode-se dizer que as disciplinas iniciais dos cursos de Filosofia e Matemática constituíam a formação geral básica para todas as faculdades.
A descrição do curso matemático, nos estatutos de 1772, inicia mostrando a importância que é atribuída aos estudos matemáticos no campo dos conhecimentos humanos. Aqui se percebe claramente o caráter “exemplar” da concepção de Matemática que possuíam os autores do texto. Não há referência explicita aos autores que elaboraram os estatutos. “Tem as Matemáticas uma perfeição tão indisputável entre todos os conhecimentos naturais, assim na exatidão luminosa de seu método, como tia sublime e admirável especulação das suas doutrinas que elas não somente em rigor ou com propriedade merecem o nome de ciências; mas também são as que tem acreditado singularmente a força, o engenho e a sagacidade do homem. Por isso é indispensavelmente necessário, ainda para segurança e adiantamento das outras faculdades, que estas ciências tenham na Universidade um estabelecimento adequado ao lugar que ocupam tio sistema geral dos conhecimentos humanos [...] (Estatutos 1772, livro I 14 1).
Essa mesma visão “exemplar” da Matemática será encontrada nos positivistas franceses, principalmente D’ Alembert, Lagrange e Comte. A característica predominante de muitos escritos sobre o método científico durante as XVII e XVIII foi à crença fundamental na unidade das ciências, escreve Hankins na sua biografia sobre D’Alembert (Hankins 1970,104). Ao contrário destes, Cauchy atribui a Matemática um caráter especialista, sendo apresentada como uma disciplina específica, individual. Com Cauchy, no início do século XIX, nos defrontamos com uma radical transformação da concepção de Matemática.
Segundo os Estatutos Pombalinos, foi para corrigir os abusos, como a tirania dos escolásticos na Universidade, e para restituir a ciência lugar que ela merece, que se criou e se estabeleceu na Universidade de Coimbra a Faculdade de Matemática.
“[...] Sou servido criar e estabelecer a Profissão Mathematica na Universidade de Coimbra em Corpo de Faculdade para que sirva perpetuamente a todas as corporações de modello [...]. E para que no Gremio dela não somente se conserve, e perpetue o Ensino publico, e geral das Sciencias exactas; mas também se criem Mathematicos consummados, que possam suceder nas Cadeiras, e ser empregados no Serviço da Patria” (Estatutos de 1772, livro 111,145).
A partir dos estatutos cria-se, então, a profissão de matemático. Os matemáticos seriam destinados não só ao ensino, como também poderiam servir na Marinha e Engenharia, sem exames prévios, e ainda poderiam ocupar cargos tios ofícios de Arquitetura e no oficio de medidores dos Conselhos, em todo o Rei tio e domínios. E bom observar que até o início do século XIX, o matemático era chamado de geômetra, praticamente não se utilizava a palavra matemático. Também não existia muita clareza quanto a profissão do matemático.
O diploma do curso torna-se reconhecido em todo o Reino e Domínios, não sendo necessário, para ensinar pública ou particularmente, prestar qualquer outro tipo de exame ou obter qualquer tipo de licença.
Constata-se unia clara intenção de não apenas se implantar um curso matemático, mas também assegurar, para os egressos deste curso, uni lugar como profissionais na sociedade.
O curso matemático, com a duração de quatro anos, Possuía quatro disciplinas principais: no primeiro ano, Geometria; tio segundo, Álgebra; no terceiro, Phoronomia e, no quarto, Astronomia. Além destas, havia uma disciplina como pré-requisito para ingresso no curso: a Filosofia Racional e Moral, e ainda as disciplinas de História Natural, a qual deveria ser cursada no primeiro ano, junto com a disciplina de Geometria e Física Experimental. Afora estas, havia também a oferta da disciplina de Desenho, no terceiro ou quarto ano.
Assim como nas demais faculdades da Universidade de Coimbra, o ensino era do tipo seriado. O aluno só obteria matrícula no segundo ano, após aprovação nos exames do primeiro ano; e assim por diante. O aluno que fosse aprovado nos exames do quarto ano obteria o título de bacharel. Se, além disso, ele realizasse o denominado exame geral, ou seja, exame sobre todas as disciplinas do curso, receberia o título de bacharel formado, o que lhe permitiria ensinar pública ou privadamente em todo o Reino e Colônias. Se o bacharel aspirasse à carreira universitária, ele precisaria do título de doutor. Este título era alcançado depois de mais um ano de estudos e exames específicos.
Devido ao tipo de estrutura proposto para a Universidade, nos Estatutos, os alunos eram divididos em três grupos: ordinários, obrigados e voluntários. Os ordinários eram todos aqueles que se destinavam ao Curso Matemático, ou seja, os futuros matemáticos; os alunos obrigados eram os que deviam freqüentar alguma(s) disciplina(s) do curso matemático como pré-requisito para seus estudos; voluntários eram aqueles que não se encontravam, necessariamente, vinculados a nenhuma faculdade, e que somente queriam instruir-se por curiosidade em qualquer área da Matemática. Somente para os dois primeiros grupos havia a obrigatoriedade de prestarem exames, e a exigência para a aprovação também era distinta em ambos.
“[...] os Ordinários não poderão ser aprovados, se não excederem a mediocridade; e derem provas de se fazerem Mathematicos profundos, úteis ao progresso destas Sciencias. Porem aos Obrigados se dara a aprovação todas as vezes, que tiverem aproveitamento medíocre; e se mostrarem habeis para estudar como fruto as Faculdades, a que se destinarem” (Estatutos,livro III, 207).
Particularmente interessante, nos Estatutos, é a descrição dos conteúdos programáticos de cada disciplina. Uma constante preocupação manifestada em tais Estatutos diz respeito à história da Ciência. Antes de iniciar os conteúdos das disciplinas, aconselhava-se ao professor que introduzisse a parte referente à história desta ciência.
A concepção de Matemática expressa nos Estatutos era a tradicional daquela época, ou seja, que a Matemática tinha por objeto as relações e propriedades da quantidade ou grandeza A primeira disciplina era a Álgebra, seguindo-se a Aritmética e Geometria, as quais constituíriam as Matemáticas Puras. Embora os autores, naquela época, classificassem a Álgebra como a primeira disciplina, ou seja, a mais geral, ela não era ensinada, em primeiro lugar, pela maioria dos professores, devido ao seu caráter muito abstrato A mesma concepção vê-se em D’Alembert “É por essa razão que a geometria é mais simples que a mecânica e ambas menos simples que a álgebra (D’Alembert, 1743, ii).
A primeira disciplina denominava-se Geometria e englobava a aritmética, a geometria e a trigonometria. Com relação aos conteúdos da aritmética, chamava-se a atenção para que os alunos não apenas adquirissem conhecimento de regras, mas que também adquirissem conhecimentos sobre a fundamentação dos conceitos.
Na distribuição das disciplinas, constata-se uma visível preocupação quanto á capacidade de assimilação e compreensão destes conteúdos pelos alunos. O curso iniciava, portanto, com os conteúdos mais elementares de aritmética e geometria, para serem introduzidos, no segundo ano, conteúdos mais abstratos como a Álgebra Superior e o Cálculo.
Novamente o caráter empirista impregnado nos Estatutos é observado na descrição dos conteúdos da disciplina do segundo ano, onde se percebe a rejeição às indagações de questões metafísicas e uma tendência de orientar os estudos do Cálculo por Newton:
“[...] por isso terá grande cuidado em ensinar os Princípios fundamentais do Cálculo Diferencial, do modo mais fácil, e inteligível: Mostrando com toda a distinção, e clareza o que se entende por Fluxões, ou Elementos Infinitésimos: E fazendo por tirar dos seus discípulos as equivocações, que tem havido na explicação deles, procedidas das idéias vacilantes de uma Metafysica escura, que fizeram a muitos Authores tomar este Cálculo de num ponto de vista pouco vantajoso” (Estatutos, Livro III, 179).
Outro ponto digno de nota é a observação feita Pelos membros da Comissão que elaborou os Estatutos, com relação à rejeição que certos autores fazem, n que diz respeito ao Cálculo - estes vêem pouca vantagem em sua utilização. A recomendação era a de que os professores deviam salientar que as conclusões do Cálculo são tão precisas e exatas quanto à da Geometria.
de que os professores deviam salientar que as conclusões do Cálculo são tão precisas e exatas quanto as da Geometria.
No terceiro ano, os estudantes, já munidos dos conhecimentos da Geometria e do Cálculo, iniciariam estudos da Phoronomia, a ciência do movimento. “Os filósofos que não possuem os conhecimentos profundos do Cálculo não podem entender os conteúdos físico-matemáticos, eles permanecem na superfície desta ciência”.
É interessante observar que já eram conhecidas as discussões sobre a problemática referente ao conceito de força e cia falta de clareza desse conceito. Por isso, era aconselhado ao professor que ele não entre na problemática da natureza deste conceito. A mesma argumentação encontra—se 110 prefácio do livro de D’Alembert sobre Dinâmica.’
“[...] Por isso não entrara no exame das Forças motrizes; Entes Metaphysicos, e escuros; que não servem de mais, que se introduzir nublados, e confusões na Phoronomia, que he, e deve ser uma Sciencias clara, e evidente. Bastando considerar os efeitos destas Forças, sem pretender decifrar a natureza escura delias [...]” (compare Estatutos, Livro III, 184).
Uma rejeição à Metafísica encontrava-se claramente expressa nas considerações sobre o conceito de luz: o professor deveria evitar as explicações sobre a natureza da luz, porque esta era uma questão pouco clara.
Assim como para Verney o ensino deveria ser teórico-pratico os Estatutos procuram pôr em evidência esta necessidade, principalmente com relação ao Curso Matemático e Filosófico, onde foram criados vários laboratórios destinados ao ensino. A criação destes laboratórios constitui-se também num a inovação em termos de ensino na Europa.
No quarto ano, os estudantes freqüentavam a disciplina de Astronomia. Para esta, foi criado um Observatório Astronômico.
Quanto ao método de ensino, a aula era dividida em duas partes: urna, em que o professor expunha os conteúdos e o aluno ouvia sem perguntar, e unia segunda parte, em que o professor argüia os alunos sobre a lição já estudada, e na qual o aluno tinha a oportunidade de apresentar as suas dúvidas. Curioso era, também, a caracterização dos exercícios práticos: a lente deveria exercitar os alunos no uso prático da geometria e trigonometria plana. Para isso ele levaria os alunos para fora da cidade, conduzindo grafômetros, pranchetas e geodésicas, a prática de operações sobre terrenos, sterometria,etc.
Atribuindo-se o atraso de muitos estudos na Universidade à parcialidade na escolha do livro-texto, ou à teimosia de certos professores em insistir com autores já ultrapassados, foi ordenado que nenhum autor nacional ou estrangeiro fosse adotado perpetuamente. As decisões sobre a adoção ou substituição dos livros estariam ao encargo da Junta de Congregação da Faculdade.
Há apenas uma explicitação quanto a autores de livro-texto, referente ao Curso Matemático, nos Estatutos; esta se refere à disciplina de Geometria, sugerindo que os estudos se orientem pelos Elementos de Euclides, uma vez que não havia outro autor que apresentasse esta doutrina com tanta perfeição quanto ele.
Segundo o Relatório do Reitor Francisco de Lemos, do ano de 1777, os livros utilizados nas disciplinas do Curso Matemático eram os seguintes: 1º ano -Elementos de Euclides; 2º ano - Compêndio de Bézout; 3º ano - Mecânica de.Marie; 4º ano - Compêndio de M. Lacaille (Lemos 1980, 82 e seguintes). O livro citado para o primeiro ano, com o título vago de “Elementos de Eucl ides”, pode ser uma tradução de J. Angelo Brunel li, publicada em 1768 com o titulo “Elementos de Euclides dos seis primeiros livros etc.”. O mesmo livro foi reeditado inúmeras vezes, inclusive pela Real Imprensa da Universidade de Coimbra, até o ano de 1 862 (Guimarães, 1909, 2 1 7). E possível que o autor desta tradução tenha sido professor de matemática do Colégio dos Nobres, fundado em 1768.
Etienne Bézout (1730-1783) publicou em Paris, entre os anos de 1 764 e 1 769, em 4 volumes, a obra “Cours de mathématiques a l’usage des gardes du pavillon et de la rnarine“. Se os livros de Bézout, usados nos primeiros anos de funcionamento da Faculdade de Matemática, o foram na versão francesa, ou já alguma tradução, é um fato que não está claro no relatório do Reitor Lemos. Em 1773, Monteiro da Rocha publicou uma tradução de Bézout intitulada “Elementos de Aritmética”, a qual suponho tenha sido também utilizada como livro-texto. Além desta, Monteiro da Rocha publicou, em 1778, os “Elementos de Geometria Retilínea e Esférica de Bézout. Em 1785, sem tradutor conheci do (com pare Guimaraes 909,220), foi publicado, também de Bézout, o livro” Continuação do curso de mathematica para uso dos guardas-bandeira e guardas-marinha “.
Segundo Lamande 1988, que analisou toda a obra de Bézout, esta teve grande repercussão no ensino na França. Ela “reflete a educação matemática ministrada na França no século XVIII”. Bézout constrói todo o seu curso baseado no conceito de quantidade, e, por concentrar sua atenção neste conceito, Bézout tem dificuldade em dar uma interpretação às raízes negativas de uma equação (Bézout 1 800, 68).
O livro recomendado para o terceiro ano era o “Traité de mécanique”, de Joseph François Marie (1738—1 $01), o qual foi traduzido por Monteiro da Rocha em 1775. Nicolas Louis de Lacailie (1713-1762) publicou, em 1746, o livro “Leções élémentaires d ‘astronomie géometrique et physique” Provavelmente seja este o livro citado por Francisco Lemos.
Os professores do Curso Matemático, nos primeiros anos, estavam assim distribuídos: primeiro ano - José Anastacio da Cunha; segundo ano - Miguel Franzini; terceiro ano - José Monteiro da Rocha; quarto ano - Miguel Cicira. Sobre estes professores há ampla bibliografia publicada. Eximo-me, portanto, de fornecer maiores detalhes a seu respeito (Freire, 1872). Embora dois deles tenham vindo da Itália, como professores convidados, Miguel Franzini e MigueI Ciera, quem realmente se destacou na ação de ensino foram os dois portugueses Ivlonteiro da Rocha e Anastácio da Cunha. Anástacio da Cunha deu importantes contribuições à Análise Matemática em sua obra “Princípios Matemáticos”, principalmente com relação ao estudo das séries.
No ano de 1 777, portanto 5 anos após a Reforma de Pombal, o então reitor, Francisco Lemos, redigiu um texto no qual ele foz uma análise geral da situação da Universidade nesse período (Lemos, 1980).
Especificamente sobre a situação da Faculdade de Matemática, ele apontou vários problemas, principal deles sendo o número reduzido de alunos ordinários.
Um dos objetivos da Faculdade de Matemática, previsto nos Estatutos, seria o de formar um “Corpo de Matemáticos”, que perpetuasse o ensino das ciências exalas. Mas, a cada ano, em lugar de aumentar o número de alunos inscritos, este número diminuía, conforme o depoimento do reitor. Qual a razão, ou razões, para uma procura tão reduzida pelo novo curso? Seria o próprio fato de tratar-se de um curso novo, e, portanto, faltaram informações ou divulgação sobre o mesmo? Seria a falta de tradição em estudos matemáticos, na Universidade de Coimbra, que não despertava interesse pelo mesmo? Seria o alto grau de exigência do curso? Ou seria a falta de definição da profissão de matemático, que causava, aos possíveis postulantes, incerteza quanto ao seu futuro profissional? Acredito que todas estas razões sejam plausíveis paia explicar a falta de candidatos ao curso matemático.
No relatório de Francisco de Lemos, ele sugere algumas medidas para resolver essa situação (Lemos, 1980). Entre elas, criar os lugares de cosmógrafo-mor e engenheiro-mor, os quais só seriam ocupados por matemáticos formados. Não disponho de elementos para avaliar se tais medidas surtiram os efeitos esperados.
Nos primeiros tempos, embora houvesse estímulos por parte do rei à pesquisa e à produção de livros-texto, muito pouco foi realizado em termos de pesquisa científica, limitando-se a Faculdade ao ensino.
Apesar das dificuldades iniciais, a Faculdade pôde finalmente se estabilizar, garantindo a formação de professores de matemática. Ela representou o início de uma especialização na área de matemática e pôde, ao mesmo tempo, ser entendida como um elemento da ampla reforma política—mercantilista da sociedade portuguesa, que antecipou a concepção francesa de escolas especializadas após 1794.
A mesma concepção que orientou a criação dessa Faculdade seria transmitida para o Brasil e serviria de modelo para a criação do curso matemático da Academia Militar do Rio de Janeiro, em 1810.
Circe Mary Silva da Silva da Silva é Professora titular do Departamento de
Matemática e Estatística da Universidade de Caxias do Sul
Endereço: Rua Francisco Getulio Vargas. 1130